segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Mais complexo do que trigonometria

A U.D.R. acabou. Melhor começar direto ao ponto, falando de infanticídio, não é mesmo, minha gente?

Eu sei, eu sei que é repentino, abrupto e poucos meses depois de pregarmos uma peça em todos dizendo que o Carvão tinha saído. É bem a nossa cara. Mas agora é verdade mesmo. C’est finite.

Não vou perder meu tempo aqui explicando tintim por tintim a vocês, arrombados, o porquê dessa história. Nem vou ficar aqui pedindo desculpas. Vou me ater ao já consagrado “divergências artísticas e filosóficas”. Se existe uma pessoa para quem eu devo pedir desculpas pelo inconveniente, esta pessoa é o MC Carvão.

No início, quando não havia nada além de trevas e fósseis de anões, ele apareceu. Era uma roda de violão regada a vinho na gloriosa Praça da Liberdade. Quem mora ou conhece Belo Horizonte entende as implicações de um rolê desse tipo. Ficamos amigos rápido, trocamos figurinhas. Ele tinha gravado um tal “Funk do Panthro” e eu tinha gravado um tal “Bonde da Mutilação”. Apenas trevas e fósseis de anões.

O tempo passou ora devagar, ora rápido. Quando menos percebi, estava em uma banda com dois sujeitos que tinha, tenho e terei muita alegria em dizer que são meus amigos. Quando menos percebemos, já estávamos de pau em riste na boca do povo. Bons tempos, maus tempos. Seringas Compartilhadas, nossa demo horrorosamente linda, até hoje é cultuada. A primeira estampa de camiseta é artigo raro e disputado. Os primeiros shows, então, nem se fala. Quem não teve saco para ir hoje pode até se arrepender. Quem estava lá, estava lá.

Quando menos percebemos, estávamos desfalcados. MS Barney decidiu pendurar as chuteiras para tocar a vida e não prejudicar nossa amizade. Tarefa difícil, porém nobre. Eu e Carvão conseguimos tocar o bonde pra frente e, para minha surpresa, estávamos em uma banda que agora buscava – e conseguia – resultados. Nunca havia me acontecido antes.

Saiu WARderley, saiu O Shape do Punk do Cão, saiu Bolinando Straños. Eu estaria mentindo se dissesse que sei em qual momento nessa linha de tempo eu notei que estava perdendo a coisa mais importante para este meu “eu, artista”: o prazer.

Não, eu não sei quando comecei a perder o tesão. Só sei que minha postura e comportamento diante da idéia de se ter uma banda começaram a ficar bastante radicais. Apesar das performances cheias de energia terem sido 100% honestas, acreditem: até o momento de pisar em cada palco, minha vontade sempre foi estar em casa.

Minha vontade de estar em uma banda não era compatível com o verdadeiro conceito de se ter uma banda. Agora que paro para analisar friamente, vejo que minha visão discrepa diretamente da visão da maioria. Aquilo que me estava tirando o tesão era simplesmente a rotina normal de uma banda. Tocar aqui, ali e acolá. Encarar estrada. Tocar em 2 lugares legais para cada 30 em petição de miséria. Tudo isso é perfeitamente normal. Eu só fui notar agora.

E aí entra a razão pela qual eu devo desculpas a ele, o verdadeiro Gigolô Autodidata, MC Carvão. Eu desisti há muito tempo, mas só havia declarado isso para mim mesmo. Faltou exteriorizar. Muitas coisas recentes que fizemos, apesar de correrem tranqüilamente, foram conseguidas com o suor e a disposição dele. E haja suor e disposição, porque o Axl Rose careca aqui fazia beicinho para tudo. Dificultei tudo da mesma forma que o Barney dificultou pra mim tempos antes de sair da banda. Por conta disso, entendo que o Carvão esteja decepcionado da mesma forma que eu fiquei. Espero, entretanto, que isso tudo passe e possamos continuar amigos, a exemplo do que aconteceu com Barney.

É claro que a situação tem um diferencial: antes, éramos apenas moleques safados falando um monte de merda. Agora, a situação atual já nos tinha como uma banda razoavelmente consolidada.

Gostaria de pedir desculpas a vocês, arrombados, por ter feito vocês perderem tanto tempo de suas vidas ouvindo o que tínhamos a dizer.

Mais do que isso, gostaria de pedir desculpas sinceríssimas ao MC Carvão por ter transformado sua vida num inferno quando tudo que ele queria era fazer aquilo que mais gosta. O fim da banda partiu somente de mim e agora todos sabem disso.

Em minha defesa ou coisa que o valha, devo dizer que jamais esteve nos meus planos estar em uma banda no sentido que todos conhecem e entendem como normal. Todas aquelas coisas comuns mencionadas ali em cima nunca me apeteceram. Claro, nas primeiras vezes em que você vai tocar noutra cidade e é bem recebido, bate uma excitação. Ter um disco com suas músicas, camisetas e aquela coisa toda, é bacana.

Entretanto, em longo prazo, constato que não fui feito para mostrar o que faço. Fui feito para fazer apenas e que se foda o resto. A U.D.R. começou assim, sem plano nenhum. Éramos um carro desgovernado e caminhamos muito bem, durante muito tempo assim. Quando o progresso finalmente chegou, eu simplesmente não dei conta de me adaptar à situação. A palavra de ordem deixou de ser “Apo Panthos Kakodaimonoz” para ser “Somos uma banda” e aí embolou meu meio-de-campo todo.

Fecho este anúncio com uma frase que só passei a entender agora, depois de muito ouvir:

“Eu gostava mais da UDR quando era underground”.

Unilateralmente,

Professor Aquaplay.

PS: Como ainda existe material nunca antes revelado pela U.D.R., as chances são enormes de que tenhamos um lançamento de EP post-mortem de graça aí pras galera. Se rolar, irá se resumir a algumas gravações esquecidas ou rejeitadas. Como são poucas, fica aí na forma de EP, também conhecido como “disco de preguiçoso”.

PS II: NÃO temos camisetas.